Três ações contra o suicídio: perceber, prevenir, remediar

Mário Frigeri

“Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância.”                                                                                                                                               Jesus

Leo Buscaglia (1924-1998) foi um famoso professor e escritor ítalo-americano, além de articulista do New York Times sobre assuntos relacionados ao amor e ao ser humano.

Idealizou um curso sobre amor na University of Southern California. “Ao que eu saiba”, escreveu ele, “somos a única escola do país, e talvez do mundo, que tem uma disciplina chamada ‘Amor’, e eu o único professor louco o bastante a ponto de ensiná-la.” Seus inúmeros livros exaltam as ideias de se viver o momento presente, expressar o amor que se sente por alguém e não criar expectativas, porque dizia que as pessoas não estão aqui para corresponder às nossas expectativas.

Pois bem: ocorreu com esse homem tão sensível, dedicado a ensinar e principalmente a viver o amor ao próximo, um fato que marcou sua vida e que ele narra em seu livro Vivendo, amando e aprendendo, publicado pela Editora Nova Era.

Ele conta que, no primeiro ano, quando começou a lecionar na Universidade da Califórnia do Sul, estava ensinando a uma turma e sentia-se muito feliz por exercer o magistério.
Conseguia captar as vibrações dos alunos e notava, nesse convívio fraterno, uma integração plena entre todos; por isso, estava radiante e se sentia falando com eles e não para eles.

Refletia que há pessoas que se sobressaem na classe e o professor sente que toca o sentimento delas e que, em contrapartida, elas tocam o sentimento dele. Vez por outra, quando precisa de apoio, concentra-se nessas pessoas e recebe um sorriso que parece dizer: “Continue, rapaz,
você está indo muito bem”.

Havia uma pessoa muito especial nessa classe, uma moça linda. Sentava-se de preferência na sexta fila dos fundos e ficava lá, meneando a cabeça. Quando Leo dizia alguma coisa que a tocava, ela dizia: “Ah, sim!”, e quando o que ele dizia a surpreendia, exclamava: “Puxa”! e então anotava algumas coisas em seu caderno. Leo pensava, feliz: “Estou mesmo me comunicando com ela; está acontecendo uma coisa linda entre nós; vai ser bom; ela está
aprendendo etc.”

Um dia, porém, a jovem deixou de comparecer às aulas. Ele não podia imaginar o que teria acontecido e ficou, dia após dia, sempre procurando por ela no meio da turma; a moça, porém, nunca mais apareceu. Por fim, foi perguntar à diretora do Departamento Feminino e ela lhe perguntou: “Você não soube?…”

Essa moça, aparentemente de bem com a vida, que fazia trabalhos positivamente brilhantes, cuja mente era empolgante, e que tinha uma criatividade muito acima da média, foi até a Pacific Palisades, local em que há penhascos íngremes pendentes sobre o mar, parou o carro em cima de um daqueles rochedos e, num salto extraordinário, jogou-se daquelas alturas, espatifando-se nas pedras lá embaixo.

“Ainda me entristeço com isso e penso: O que estamos fazendo, enchendo as pessoas de fatos e nos esquecendo de que são pessoas, seres humanos?”, reflexionou Leo mais tarde, culpando-se por não ter percebido com antecedência o drama que se escondia sob aquele rosto tão ameno, apesar do convívio aberto e amigo que, como professor, mantinha com todos os
alunos.

Ato extremo

Suicídio é o ato intencional de tirar a própria vida. A abordagem psicológica foca-se na prevenção e na intervenção durante a crise.

Entende-se que é um problema de saúde mental, associado a fatores de ordem psíquica, como dificuldade ou impotência em lidar com eventos estressantes. Quando o indivíduo tenta e falha, a tentativa é vista como um “grito de socorro” que visa chamar a atenção para o seu desespero e desejo de fuga. Pela sua própria natureza de surpresa e imprevisibilidade, o suicídio acaba punindo emocionalmente todas as pessoas que envolvem os que se vitimam. Sempre ficará para a família, os amigos ou os colegas o sabor amargo da culpa mesclado à impotência.

Os fatores de risco incluem transtornos mentais ou psicológicos como depressão, transtorno bipolar, esquizofrenia e abuso de drogas, inclusive álcool. Outros suicídios resultam de atos impulsivos gerados pelo estresse ou por dificuldades econômicas, problemas de relacionamento ou bullying, que é o assédio, a ameaça, a intimidação praticados principalmente no meio escolar. As pessoas com antecedentes de tentativas de suicídio estão em maior risco de vir a realizar novas tentativas.

Normalmente, esse tipo de ato extremo é visto como forma de acabar com determinada dor emocional insuportável causada por uma infinidade de problemas. As razões que levam o indivíduo a violar o instinto primário da sobrevivência são difíceis de compreender. Às vezes se torna uma epidemia. Estima-se que 800 mil pessoas morram dessa forma anualmente em todo o planeta, uma a cada 40 segundos, o que faz dessa doença a décima principal causa de morte no mundo.

Situações de separação, divórcio, luto recente, solidão, desemprego, mudança ou perda de trabalho recém-ocorrida, problemas escolares ou laborais, doença grave ou crônica e dependência de drogas e álcool podem resultar numa resposta negativa e conduzir ao suicídio.

Como se percebe, esse quadro é tão amplo que praticamente qualquer pessoa poderia se encaixar em uma dessas situações. Por isso, não se justifica olhar o suicida como uma pessoa incomum: ele pode ser um seu familiar ou colega de trabalho, apenas alguém cuja angústia encontrou um limite que considera intransponível. Para além desse limite, perde-se a capacidade de raciocinar objetivamente.

E é bem provável que o ato suicida não signifique simplesmente um desejo de acabar com a vida, mas sim a intenção de estancar uma dor que não se pode suportar. Sendo uma forma extrema de comunicar aos outros a solidão do sofrimento, é sempre um pedido tardio de ajuda. Para os parentes e pessoas próximas, além do choque, ficam os sentimentos de culpa, tristeza, raiva e até vergonha – é como se todo o ambiente social daquela pessoa tivesse falhado. Por tudo isso, é muito importante falar sobre o tema e acabar de vez com os escrúpulos que tentam dissimulá-lo. O suicídio é uma morte evitável, se as pessoas estiverem atentas.

E como preveni-lo? Estudos descrevem quatro sinais característicos de quem pensa em suicídio, chamados de os 4D: Depressão, Desamparo, Desesperança e Desespero. Podem ser expressos, em alguns casos, por atitudes, falas ou mudanças bruscas de comportamento. Caso note alguém com esses sentimentos, não o ignore: converse, se aproxime, ouça sem julgar.

Oriente a pessoa a pedir ajuda profissional, e se ela se recusar, considere alertar um parente próximo ou alguém de sua confiança.

Depressão é uma das fortes causas de suicídio. Embora muitos não a levem a sério, é uma doença que pode trazer consequências graves. Isso porque é um mal silencioso e, às vezes, nem mesmo o depressivo percebe seu estado durante um bom tempo. E é bom frisar: depressão não tem rosto. Muitas pessoas atingidas por ela escondem seu mal-estar para evitar julgamentos e preconceitos. Pessoas que cometem ou pensam em cometer suicídio nem sempre avisam ou aparentam o quanto estão doentes. Elas nem sempre ficam tristes ou prostradas a maior parte do tempo. No geral, os humores variam e a pessoa tem dias bons e dias ruins, podendo estar muito bem em um momento e péssima no momento seguinte. Ou seja: enquanto atitudes e posturas gestuais de alguns sinalizam sobre a iminência do perigo, outros não dão o mínimo sinal, parecendo estar muito bem, o que leva parentes e amigos a não se preocuparem com eles.

Materialismo

As consequências do suicídio são diversas, mas sempre irão corresponder às causas que o produziram. Há, porém, uma consequência a que o suicida não pode escapar – o desapontamento – porque, embora o corpo pereça, o espírito é imortal, e continuará vivendo no plano invisível com os mesmos problemas que tinha na carne, acrescidos agora da culpa por haver violado a Lei Divina e desertado da vida. O homem não tem o direito de dispor de sua vida, que é dádiva de Deus.

A calma e a resignação adquiridas na maneira de considerar a vida terrestre, e a confiança no futuro, dão ao Espírito uma serenidade que é o melhor preventivo contra o suicídio. Se excetuarmos os suicídios que se dão em estado de embriaguez e de loucura, aos quais se pode
chamar de inconscientes, é evidente que esse ato extremo tem sempre por causa um descontentamento, sejam quais forem os motivos particulares que se apontem.

Quem julga que tudo termina com a morte, acaba deixando-se abater pelo desgosto e pelo infortúnio. Pelo fato de não crer na imortalidade da alma, só vê na morte a solução para as duas amarguras. Nada esperando da vida, acha muito natural abreviar as suas misérias pelo
suicídio. As ideias materialistas são a causa principal que conduz ao suicídio, porque produzem a
covardia moral. Quando se veem filósofos e homens de ciência se esforçarem por provar, aos que os ouvem ou leem, que o ser humano nada têm a esperar depois da morte senão o nada, não estão tentando convencê-los de que, se são infelizes, o melhor que fazem é matar-se?

Quem tem fé em Deus, ao contrário, sabe que a existência se prolonga infinitamente para além do túmulo. Daí a paciência e a resignação que o afastam muito naturalmente de pensar no suicídio, pois que se torna possuidor da coragem moral que lhe advém de sua fé.

Prece

As pessoas que não creem em Deus mas têm algum caso de suicídio na família, devem apoiar-se no conforto de parentes e amigos para vencer essa hora borrascosa. As que creem, além de buscar o conforto do grupo, devem dirigir ao suicida, que se encontra vivo mas sofrendo no plano espiritual, a seguinte prece sugerida pela Doutrina do Consolador (cujas palavras podem ser modificadas de acordo com a emoção de cada um):

Sabemos, ó meu Deus, qual a sorte que espera os que violam as tuas leis, abreviando voluntariamente seus dias; mas, sabemos, também, que a tua misericórdia é infinita. Digna, pois, estendê-la, sobre a alma de N… [mencionar o nome da pessoa]. Possam as nossas preces e a tua comiseração abrandar a amargura dos sofrimentos que ele está experimentando, por não haver tido a coragem de aguardar o fim de suas provas.

Espíritos bons, que tendes por missão assistir os infelizes, tomai-o sob a vossa proteção e inspirai-lhe o pesar da falta que cometeu. Que a vossa assistência lhe dê forças para suportar com mais resignação as novas provas por que haja de passar, a fim de reparar a falta. Afastai dele os
Espíritos maus, capazes de o impelirem novamente para o mal e prolongar-lhe os sofrimentos, fazendo-o perder o fruto de suas futuras provas.

A ti, cuja desgraça motiva as nossas preces, que a nossa comiseração possa amenizar as tuas amarguras e fazer que nasça em ti a esperança de um futuro melhor! Nas tuas mãos está ele; confia na bondade de Deus, cujo seio se abre a todos os arrependimentos e só se conserva fechado aos corações endurecidos¹.

O melhor antídoto para o suicídio

O livro dos espíritos, quando devidamente compreendido, é o melhor antídoto para o suicídio. Hilário Silva é um Espírito dedicado à divulgação do Espiritismo. Ele narra, no livro O espírito da verdade², que Allan Kardec estava exausto e acabrunhado numa triste e fria manhã de abril de 1860. Faltavam recursos para dar prosseguimento à obra gigantesca que empreendera, a pressão aumentava e a correspondência de inimigos sarcásticos se avolumava sobre a mesa. Nesse momento, entra sua esposa e lhe entrega uma encomenda cuidadosamente apresentada. O mestre abre o embrulho e encontra uma carta, assinada com o nome de Joseph Perrier, a qual encaminhava um segundo volume.

Nessa carta, o missivista narra sua história. Casara-se havia cerca de dois anos com a mulher de seus sonhos. A vida corria normal, na mais perfeita alegria, quando, no início de 1860, sua querida Antoinette partiu desta vida, levada por insidiosa doença. Seu desespero foi indescritível. Sem confiança em Deus e assoberbado pelas dúvidas do século, resolveu seguir o caminho tomado por tantos outros, ante a fatalidade. Namorara diversas vezes o Sena e acabou planejando o suicídio. Seria um ato fácil, porque ele não sabia nadar…

Em madrugada friorenta, após dias de angústia e noites de insônia, buscou a Ponte Marie. Olhou abaixo, fixando a corrente. Mas ao apoiar a mão direita sobre a amurada para saltá-la, tocou um objeto que, deslocado, caiu a seus pés. Pegou, surpreso, um livro que a exposição ao tempo orvalhara. Buscando a luz mortiça de um poste próximo, abriu a capa e pôde ler no frontispício: “Esta obra salvou-me a vida. Leia-a com atenção e tenha bom proveito. – A. Laurent.” Era O livro dos espíritos, de Allan Kardec. Ele foi para casa e leu a obra, cujo conteúdo luminescente levou-o a desistir do suicídio. E acrescentou no livro a sua própria mensagem.

Após a leitura da carta, Kardec abre o segundo embrulho e encontra o abençoado exemplar, ricamente encadernado, em cuja folha de rosto lê, com emoção, não só a observação do Sr. A. Laurent, mas também a do missivista, escrita com letra firme: “Salvoume também. Deus abençoe as almas que cooperaram em sua publicação. – Joseph Perrier.”

Abraçando o livro, Kardec sente seu íntimo banhado em nova luz. Nada de desânimo ou sofrimento. Era preciso prosseguir, perdoar e enfrentar os obstáculos e sacrifícios do caminho.
Levantou-se da velha poltrona, foi à janela e contemplou a via pública, onde passavam operários, mulheres do povo, crianças e velhinhos anônimos. Por eles valia a pena lutar.


Respirou fundo e, antes de tomar da pena e voltar ao trabalho, levou o lenço aos olhos e enxugou uma lágrima furtiva…
Vencendo os naturais obstáculos da vida a que todos estamos sujeitos, Kardec viveu em plenitude o ideário do Cristo e colaborou ativamente com Ele na difusão de sua mensagem de Amor:
“Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância”.

 

Texto composto com subsídios condensados e retrabalhados, hauridos na Doutrina Espírita e em vários autores afetos ao tema, como psicólogos e psiquiatras. Artigo publicado em Reformador, mensário da FEB, em julho/19 

 

REFERÊNCIAS

  1. KARDEC, Allan, O Evangelho segundo o espiritismo, 1ª ed. Brasília: FEB, 2008, cap. XXVIII, “Coletânea de preces espíritas”, item 72
  2. XAVIER, Francisco C./VIEIRA, Waldo. O espírito da verdade, 15ª ed. Brasília: FEB, 2006, cap. 52, “Há um século”, p. 125. (Texto condensado.)

TEXTO DE: Mário Frigeri (mariofrigeri@uol.com.br)

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