Kardec e Denis: a razão e o coração.

Kardec e Denis: a razão e o coração

Autor: Mário Frigéri

 

León Denis escrevia sobre o homem, a Natureza, o Espaço e o Infinto como se estivesse compondo a mais sonora das sinfonias ou a mais extraordinária das epopeias, tanto amava ele a criatura e a criação de Deus. Sua prosa espontânea e fluida contém a alma doce da poesia, esse encantamento que diviniza nos seres as mais elevadas aspirações e só encontrável nos poetas mais amadurecidos da raça. Sua lauda é uma tela, sua mesa um cavalete, seu lápis um pincel, e sua imaginação, iluminada por irradiações sublimes, uma paleta onde se mescla, etérea e evanescente, uma aquarela de cores capazes de arrebatar a alma e empolgar o coração de seus afortunados leitores.

Ele amava as planícies imensas, os vales ondulantes, as montanhas altaneiras, os mares insondáveis e as vastidões infintas do Universo. Em sua infância dificultosa e pobre, em que lograra completar apenas o Ensino Fundamental, dedicara-se com afinco e imenso prazer ao estudo de várias matérias, notadamente Geografa, que era uma de suas favoritas (segundo sua secretária e biógrafa Claire Baumard).

Mais tarde, já como autodidata consumado, em atendimento a suas ocupações como representante comercial, viajou por toda a França e por vários países da Europa e da África, observando, sempre curioso e interessado, as pessoas, as culturas, as raças, os monumentos e as regiões em que habitavam, fundando por onde passava, sempre que possível, bibliotecas públicas e associações ligadas à área da cultura. Dessa vivência enriquecedora e plena, foi absorvendo os conteúdos, as experiências e as lindas imagens de que viria a utilizar-se depois em seus escritos notáveis.

Costumava meditar no seio da Natureza, em seus momentos de lazer, quando pegava mochila e cajado e internava-se por aqueles rincões desconhecidos, percorrendo ínvios caminhos entre montanhas, rios e lagos, apurando a sensibilidade e aproximando-se cada vez mais de Deus. Essa iniciação proporcionada pelos grandes silêncios dos sítios solitários fez de seu coração um tabernáculo sagrado para a recepção e o florescimento da Doutrina dos Imortais. Como Denis conheceu o Espiritismo?

“Eu estava mais ou menos com 18 anos quando, em 1864, passando um dia por uma das principais ruas da cidade, vi numa livraria O livro dos espíritos, de Allan Kardec. Eu o comprei avidamente, escondendo-o de minha mãe, sempre muito cuidadosa com minhas leituras. Detalhe curioso! Ela havia encontrado o meu segredo e por sua vez lia essa obra em minha ausência. Ela se convenceu, como eu, pela beleza e grandiosidade dessa revelação.”1

Admirando a clareza e a lógica dessa obra, escreveria mais tarde que encontrou nela a solução do problema universal – o grande enigma – que tanto procurava; suas dúvidas se dissiparam e sua convicção se firmou de forma inabalável.

A partir daí sua assimilação fácil da doutrina do Consolador e a progressiva e efetiva participação no Movimento Espírita de seu tempo fizeram de Denis um dos mais laboriosos e destacados apóstolos do Espiritismo. Sua vida e a de Kardec se sobrepuseram em 23 anos (de 1846, data em que nasceu Denis em Foug, na França, a 1869, data em que desencarnou Kardec) e Denis sobreviveu 58 anos a seu reverenciado mestre, quando então retornou à Pátria Espiritual em 1927.

A divulgação da Doutrina Espírita deve muito a seu gênio imbatível, empenho infatigável e reduplicado esforço, durante os quais ele arrostou vários níveis de forças adversas, tais como as geradas pelo positivismo materialista, pelo ateísmo e pelo Catolicismo.

Fez cerca de 300 conferências por toda a Europa e participou de seis congressos internacionais, três espíritas e três espiritualistas, tendo representado a Federação Espírita Brasileira em um desses eventos, reforçando sempre, por meio de sua oratória poderosa e de suas obras fecundantes, os princípios da imortalidade da alma e de todos os demais postulados do ideário da doutrina do Consolador.

Contou durante a sua missão, dentre outros, com a assistência de dois orientadores espirituais muito caros a seu coração, que foram Joanna d’Arc, biografada por ele em seu livro Joana d’Arc médium, e Jerônimo de Praga, que foi, por meio século, seu guia, melhor amigo e pai espiritual.

A visão de Denis, que já não era boa desde a juventude, devido a seus persistentes estudos à fraca luz, foi-se enfraquecendo dia a dia, castigando-o de forma implacável em suas atividades, sem que, no entanto, jamais se tivesse ouvido escapar o mais leve queixume de seus lábios.

Em vista disso, teve de socorrer-se de algumas secretárias, por um longo período de sua vida, para as anotações de seus ditados e correções que ele determinava em seus escritos, bem como para auxiliá-lo no aviamento de sua copiosa correspondência. Quando, às vezes, se via na contingência de responder a uma carta mais importante ou redigir um artigo especial, servia-se do lápis e de uma grade de metal que permitia aos cegos escrever sem remontar as linhas umas sobre as outras.

Certa ocasião, entregou a uma de suas secretárias algumas páginas que havia acabado de escrever para que ela fizesse as devidas anotações ou cópias. O curioso é que as laudas estavam em branco. Ao ser informado disso pela secretária, Denis se espantou, e recebeu dela a explicação de que ele, sem o perceber, devia ter redigido com a ponta do lápis quebrada. Bastante desolado, o escritor, já valetudinário, se encurvou sobre a escrivaninha e, imergindo em seus pensamentos, começou a rememorá-los, na tentativa de reconstituir o texto.

Quando terminou a Primeira Guerra Mundial, resolveu aprender braille, pois encontrava-se quase cego nessa época. Seus dedos deslizavam suavemente sobre os pontos em relevo das folhas grossas de La Lumière, a revista escrita nesse sistema, única leitura que, naquelas circunstâncias, lhe era possível fazer.

Não obstante tantos obstáculos e dificuldades, Denis era e permaneceu meticuloso na revisão de seus escritos e correção das provas até o fim. Contava felizmente, nesse mister, com a cooperação de um seu amigo, o Sr. Rossignon, além de sua secretária já citada, Claire Baumard.

[…] De tempos em tempos –revela Claire – os dois velhos estavam em debate por uma regra de gramática, uma mudança completa a ser operada no texto ou simplesmente uma palavra mal apropriada e que convinha substituir. O Sr. Rossignon lutava com tenacidade para fazer triunfar o seu ponto de vista; Léon Denis, com não menor tenacidade, defendia o seu.2

 

Denis se orgulhava de ter seu nome engastado no meio do nome civil de Allan Kardec: Hippolyte Léon Denisard Rivail. Colaborou com a Revue Spirite durante muito tempo e assim continuou até seu último ano de vida. De sua vasta bibliografa, variada e enriquecedora, que pode ser consultada com grande fruto por todos os que buscam a luz da verdade, podemos citar Cristianismo e espiritismo, Depois da morte, Joana d’Arc médium, No invisível, O além e a sobrevivência do ser, O grande enigma, O porquê da vida, O problema do ser, do destino e da dor, todas publicadas pela FEB Editora, além de vários outros títulos publicados por outras editoras.

 

Espírito de tolerância

Muitos dos visitantes de Léon Denis o interrogavam acerca da doutrina da qual ele era o líder; em seguida, no curso da conversação, lhe confiavam acanhados que, se bem que interessados no Espiritismo, não desejavam se descartar em nada da prática de seus pais. O mestre lhes respondia:

“Vossas crenças vos convêm? Elas vos proporcionaram consolação nas provas? Mas então estareis errados em abandoná-las; não é para vós que eu escrevo, mas especialmente para aqueles que se distanciaram de tudo e não encontraram nenhum apaziguamento para suas dores.” O mestre tinha o maior respeito pelas religiões; ele convinha que, em princípio, elas eram todas excelentes e que apenas importava a maneira pela qual eram praticadas. […] (CLaire BaumarD)5

 

Religião e Ciência

E esses dois colossos, a Religião sem provas e a Ciência sem ideal, engalfinham-se, combatem-se, sem se poderem vencer, porque cada uma delas corresponde a uma necessidade imperiosa do homem: uma fala ao seu coração, a outra se dirige ao Espírito e à razão. […] (Léon Denis)7

 

Definição da verdade


[…] A verdade é comparável às gotas de chuva que oscilam na extremidade de um ramo. Enquanto aí ficam suspensas, brilham como puros diamantes aos raios do sol; desde, porém, que tocam o chão, confundem-se com todas as impurezas. O que nos vem de cima mancha-se ao contato terrestre. Até mesmo ao seio dos templos levou o homem as suas concupiscências e misérias morais. Por isso, em cada religião, o erro, este apanágio da Terra, mistura-se com a verdade, este bem dos céus. (Léon Denis)8

 

Sob o céu estrelado 

Denis teve a oportunidade de encontrar-se com Kardec por três vezes no decorrer de sua longa vida: primeiro, em Tours, onde, em 1867, o Codifcador foi realizar uma conferência; segundo, na residência de Kardec, na rua Sainte-Anne, em Paris; e terceiro, pela última vez, em Bonneval, na Quinta Petit-Bois, onde os espíritas do Eure-et-Loire e Loire-et-Cher se reuniram para ouvir Kardec e confraternizar.

No primeiro encontro, ocorrido em Tours, Denis contava apenas 21 anos e havia somente três que se iniciara no Espiritismo. Não obstante toda essa juventude e aquele ar de neófito ávido de luz que devia irradiar-se de seu semblante, teve o privilégio de encontrar-se com Kardec no dia seguinte à Conferência, para uma entrevista pessoal, o que ocorreu na Quinta de Leandre Rebondin, em que o casal Rivail estava hospedado.

Diz Denis, numa indiscrição respeitosa e, ao mesmo tempo, poderosa o bastante para deliciar-nos a alma, que, ao entrar na Quinta, foi encontrar o mestre sobre os degraus de uma escada, apanhando frutos em uma cerejeira e os deitando às mãos de madame Allan Kardec. “Uma cena bucólica que os distraía das suas graves preocupações”, acrescenta ele, quase que se desculpando. Essa visita a Tours poderia ter ocorrido dentro da normalidade que caracterizou tantas outras realizadas por Kardec a diversas cidades e regiões da França.

Mas ali ocorreu certo imprevisto – um fato realmente singular na história do Espiritismo – que só poderia ter sido gerado pela atuação oculta das Entidades Superiores. Pela primeira e única vez em sua vida missionária, Kardec iria falar a seus correligionários nos jardins de uma acolhedora mansão, em espaço totalmente descoberto e sob as luzes catrapiscantes de um céu estrelado!


Se Denis, com sua narrativa espontânea e simples, não tivesse registrado esse acontecimento da forma evocativa como o fez, o fato passaria em branco e teríamos perdido um dos mais encantadores cromos da história de nossa dadivosa Doutrina. Graças, porém, a seu coração bondoso e sincero, e à inspiração sempre presente nos momentos mais importantes de sua vida, os fatos se deram como deveriam dar-se e o mundo ficou mais belo e enriquecido em decorrência de suas preciosas anotações.


Vamos passar a palavra a Denis, quando descreve essa visita de Kardec, a fim de podermos vislumbrar, através de seus olhos, aquele momento magnífico,
e o arquivar para sempre em nossos corações:

 Alugáramos para recebê-lo e ouvi-lo, uma sala na rua Paul Louis Courrier e pedíramos a necessária autorização à Prefeitura, pois, durante o Império, uma severa lei proibia qualquer reunião de mais de vinte pessoas. Acontece que no momento fixado para essa assembleia fomos informados de que o nosso pedido fora indeferido. Encarregaram-me então de permanecer no local a fim de avisar os convidados de que deviam dirigir-se a Spirito-Villa, à casa do senhor Rebondin, na rua Sentier, onde a reunião se iria realizar no jardim. Éramos aproximadamente trezentos ouvintes, em pé, apertados de encontro às arvores. Sob a claridade das estrelas, a voz doce e grave de Allan Kardec fazia-se ouvir; podia-se ver a sua fisionomia, iluminada por uma pequena lâmpada colocada sobre uma mesa no centro do jardim, proporcionando um aspecto fantástico. Foram-lhe postas várias perguntas e ele respondia com bondade, sorridente… As flores do senhor Rebondin ficaram destruídas, mas o importante foi o sucesso daquela noite… lembrança perpétua e indelével. Falou-nos sobre a obsessão e várias questões lhe foram postas, às quais respondeu sempre bondosamente. Terminada a reunião, todos levaram inefáveis recordações desse memorável encontro.11(Grifo nosso).

 Profundamente encantado com essa passagem inspiradora da vida do Codificador, elaborei oSoneto seguinte, que ofereço com especial carinho aos leitores de Reformador:

 

Kardec e Denis


“Sob a claridade das estrelas, a voz doce e grave de Allan Kardec fazia-se ouvir.” – Léon Denis


Vai Kardec a Tours proferir conferência,
A convite de seus coirmãos de Ideal.
Já se ativa Léon, a eleger um local,
Onde o mestre atendesse a seleta assistência.


Eis que à noite, porém, após vívido afã,
É negado o alvará para a solenidade,
Só restando a Denis um local numa herdade:
Os jardins da mansão do senhor Rebondin.


Pois é nesse jardim, sob o céu estrelado,
Que se põe a explanar, com voz grave e serena,
O preclaro Orador, sobre o tema agendado.


Sobre a mesa, no centro, uma luz brilha amena,
A imprimir no ambiente um tom vago e esfumado,
Dando um toque irreal e fantástico à cena.

REFERÊNCIAS

1 BAUMARD, Claire. Léon Denis na intimidade. Casa Editora O Clarim. cap. 2 – Suas lembranças de infância, sua piedade filial. (Informação do articulista: obra consultada – PDF disponível na internet).

2

_.
_. cap. 4 – O escritor, o moralista.
3 DENIS, Léon. Depois da morte. 28. ed. 4. imp. Brasília: FEB, 2016. Introdução.
4 BAUMARD, Claire. Léon Denis na intimidade. Casa Editora O Clarim. cap. 10 – 1926-1927: O Gênio Celtico; Os últimos dias de vida do mestre.
5
_.
_. cap. 6 – Seus visitantes. 

6 DENIS. Léon. O espiritismo na arte. Lachâtre. Pt. 2. (Informação do articulista: obra consultada – PDF disponível na internet).
7

_. Depois da morte. 28. ed. 4. imp. Brasília: FEB, 2016. cap. 8 – A crise moral

8

_.
_. cap. 1 – As religiões. A doutrina secreta.
9 BAUMARD, Claire. Léon Denis na intimidade. Casa Editora O Clarim. Prefácio explicativo de Wallace Leal V. Rodrigues.
10 Disponível em: http://www.oconsolador.com.br/linkfixo/biografias/leondenis.html Acesso em: out. 2017.
11 MONTEIRO, Eduardo C. Primeiro encontro de Denis com Allan Kardec.

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