Aquele Velho

Ficava sentado em sua cadeira de descanso com todo peso de sua existência em seus ombros.

Uma jornada na terra não é nada perto da eternidade, porém o corpo cobra seu cansaço.

Seus reflexos não respondem mais, sua mente é confusa e o tempo mais do que nunca é senhor do seu destino.

Suas lembranças o acompanham a cada minuto.

Quando criança sua presença era alegria, seus sorrisos desarmavam qualquer resistência e cada vacilo seu, uma fala errada, traziam gargalhadas prazerosas em seus tutores.

Quando adolescente protegido pelos pais, pensava ser a revolução que o mundo precisava, seus sonhos e prazeres eram a prioridade, o mundo tinha que se curvar diante de sua intempestividade. Claro que isso sem perceber que o que evitava sucumbir diante da realidade era a proteção amorosa de seus pais.

Quando maduro, o choque de realidade. Seus protetores não mais o poderiam salvar, não neste plano de ação.

Apesar disso, supera seus temores e fracassos. Em sua labuta torna-se base do que realmente importa nessa jornada.

Família, projeto de Deus e base primordial da sociedade.

Os anos passam e a idade pesa, seu corpo não suporta mais .

Seu legado de luta e sua busca pelo esclarecimento é sua herança.

Poucos sabem sua verdadeira história, sua evolução, os monstros que enfrentou e os que destruiu e as trevas que o cercaram.

Agora parece perto do fim aos olhos ignóbeis daqueles que não conhecem a vida eterna.

O que se pensa ser o crepúsculo do homem na verdade é um novo alvorecer do Espírito, que agora livre do claustro sente o renascer na liberdade da verdadeira existência.

Seus protetores já o aguardam, sua mãe já o monitora, suas lágrimas já não são por abandono e indiferença.

Novamente sua presença é alegria, suas cicatrizes de batalhas não queimam mais.

Seu coração vacilante agora vibra com o reencontro tão esperado por décadas.

Suas esperanças agora são realidades.

Era filho foi pai e avô. Agora é filho outra vez.

O amor familiar dos entes que realmente se amam em ligações muito mais forte do que meramente sanguínea. Tais ligações não são simples obras do acaso, a lei maior do universo, a sintonia de Espíritos que se amam.

Nunca esteve sozinho, mesmo quando se sentia abandonado nas trevas da existência, mesmo que sua percepção não notasse a presença daqueles que sempre o amaram.

Retorna agora com os olhos cheios de lágrimas redentoras de gratidão.

Deixa para trás outros entes que choram amargamente sua falta, porém resignado por saber que o dia do reencontro chegará.

Autor: Heron Malaghini

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